E com ele os bandos de turistas, as drogas, os automóveis.
1968 (poderia ser outro ano, um pouco mais tarde, não importa) : para se chegar ao Morro de São Paulo eram necessárias muitas horas de vela, a bordo de uma escuna ou um saveiro, partindo do Cais do Mercado Modelo, em Salvador, ou dos trapiches coloniais no Rio Una, em Valença. Hoje são as voadeiras, os catamarãs, as lanchas velozes que fazem o mesmo percurso em pouco mais que trinta minutos.
Antes, chegavam os veranistas abastados de Salvador ou os filhos da terra, moradores ou comerciantes . Hoje são os mochileiros tupiniquins e os gringos-turistas, também mochileiros, chiques, em busca do verde tropical ou do jambo das peles baianas.
O acesso à parte alta do morro, uma verdadeira escalada, hoje é vencido sem muito fôlego. Se a chuva de época castigava a todos e encharcava as malas de papelão ou os sacos de farinha, hoje já não têm mais época e, quando aparecem, suas águas são contidas por uma cobertura modernosa e de gosto duvidoso, mais parecida com a tenda de um circo canadense.
Ontem, a entrada da ponte-pier servia como ponto de partida da carreira que nos levava ao salto acrobático e corajoso em direção ao mar de águas verdes, cristalinas, onde, dentro d'água, ainda tentávamos pegar os peixes com as mãos. Agora a cabeceira da ponte serve como bilheteria para os barcos e estação de pedágio municipal para os que chegam. R$ 12,00 por cabeça, sem recibo. Dá vontade de perguntar para onde vai tanto dinheiro, mas é melhor se calar, afinal estamos em férias ....
Escada acima, a resposta : um grande outdoor (visualmente poluidor) informa que o dinheiro arrecadado pelo pedágio vai para a "Saúde" municipal. Ah !, a eterna Saúde, ávida, gananciosa e tão eternamente molambenta.
As praias, sim as praias, como todas as demais na Bahia são um convite à indolência e ao banho morno, sem grandes marolas. No Morro, são chamadas de Primeira, Segunda, etc., numa sucessão numérica que me faz lembrar Nova York. Antes, terminava na Terceira. Hoje, matas e florestas derrubadas, já podemos chegar à Quinta praia. Nada pode deter o progresso.
Para dormir, só alugando-se uma "casa de veraneio", tosca, com o banheiro no fundo do quintal, quase sempre com seu "riacho alegre" (os mais velhos sabem do que se trata). À noite, as visitas eventuais e assustadoras de um escorpião ou de morcegos que ajudavam a compor as lembranças que seriam eternas daquelas férias maravilhosas. Hoje as pousadas, albergues e hotéis de luxo ocupam todas as áreas nobres, avançando, sem piedade, sobre as areias da Primeira, Segunda, Terceira e de todas as demais praias.
Comer era um ato de integração social. Fosse a velha cozinheira contratada para fazer nossas moquecas no velho fogão de tijolos da casa alugada ou a refeição encomendada na única pensão da vila, a integração com os hábitos gastronômicos e culinários locais era total. Agora, o dendê não é mais problema pois sumiu dos cardápios. Os hamburgers, a comida asiática, os sushis, sashimis e os peixes congelados estão em todos os pratos dos muitos restaurantes que se sucedem pelas vielas do Morro.
O banho doce do final da tarde era na fonte pública (Fonte Grande, 1746), enorme piscinão em forma circular, dividido diametralmente em áreas masculina e feminina. Água morna, corrente e avermelhada de um riacho do qual já não me recordo o nome. Tudo, é claro, no meio da mata, para delícia dos meninos que lá se embrenhavam para assistir, entre cipós e espinhos de palmeiras, o banho das mulheres, velhas ou gordas, não importava a qualidade ou idade das curvas. Tudo era alegria.
Após o banho e o "voyeurismo", o papo nos degraus da porta da igreja (Capela Nossa Senhora da Luz, 1845), assistindo o pôr do Sol por detrás do morro e da igreja do Galeão. Um jantar com as sobras dos peixes e moquecas do almoço, algumas partidas de "bisca" ou "burro deitado" e o dia terminava. Hora de ir para a cama.
Como todo morro que se preza, ainda mais na Bahia, não faltavam as longas caminhadas pela ladeiras – ainda que poucas – da vila. Ao sol do meio-dia, voltávamos escaldando para casa, hora do almoço. Os carros, proibidos na ilha (sim, o Morro fica na Ilha de Tinharé), ficavam no continente. Mas quem há de resistir ao progresso ? Aos poucos, invadiram o paraíso e quando “as autoridades” se deram conta dos prejuízos, tarde demais : direito adquirido, entre jipes e bugres, ficaram uns doze na vila que hoje circulam pelas ruas estreitas ou se embrenham no mato em safáris tropicais para turistas deslumbrados.
Aquela velha igreja das lembranças continua em seu lugar. Por dentro, já não existem mais os santos e aquelas peças maravilhosas, entalhadas em madeira, obras primas de um artesanato que já morreu. O por do sol também ainda sobrevive, um pouco mais triste, é verdade, pelas nuvens que já andam mais escuras no céu (e nas águas) poluído do Recôncavo. Mas o papo inocente e calmo nos degraus da porta da igreja, este mudou, e muito. Atravessou a rua e agora "rola" nas cadeiras dos bares agitados, em frente aos degraus da velha igreja. A música alta, puro reggae, transpõe a noite e as telhas vãs das casas da vila. A fumaça com seus odores modernos dá um toque cosmopolita ao local. Já não se distinguem os dias das noites na agitação contínua do Morro de São Paulo.
Mas afinal, que texto é este ? Puro saudosismo ?
Sim, acabou assim se tornando; na realidade, era para ser um texto de lamento, não pelos novos tempos, pelo progresso incontrolável que também chegou ao Morro, mas, para falar um pouco daquele Forte (1630-1728) que é o seu cartão postal, razão maior do progresso de que tanto já escrevemos.
O Morro mudou e com ele o seu Forte. Suas paredes continuam como sempre estiveram desde que foi abandonado pelos colonizadores e aventureiros da época, ruindo. Mudou, portanto, para pior. As águas do mar, inocentes, vão minando suas fundações. O vento, a Natureza, como a protestar por tanto descaso, vão jogando aquelas grossas paredes ao chão. O “poder público”, primo daquele do pedágio para a Saúde, continua imóvel e insensível. Verbas ? Só para eventos-axé, ONGs e atividades culturais de valores duvidosos. E o velho Forte ruindo.
Numa das poucas placas indicadores do que seria aquela construção que todos visitam e admiram, uma pérola, irônica sem desejar, informa aos turistas :
“Forte do Morro de São Paulo, ainda resistindo ao tempo”. (Patrimônio Histórico Nacional)
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